O preço de BH

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O preço de BH
09/06/2011

O tema da inflação voltou ao noticiário. É um claro exagero soar o alarme, mas não há dúvida de que o dragão dos preços assusta. Janeiro registrou o mais alto pico de carestia dos últimos seis anos, obrigando o governo a promover corte de R$ 50 bilhões no orçamento. Os analistas do mercado financeiro aumentam progressivamente, semana sim, semana também, a expectativa para a inflação deste ano – a média das últimas projeções já mostra alta de quase 6,3%. O Banco Central aumenta os juros para conter a sangria – no fim do mês passado, a taxa básica subiu para 12% ao ano, nível mais alto em dois anos.

Encontro estudou os reflexos dessa nova realidade sobre Belo Horizonte. Conversou com economistas, especialistas em preços e, principalmente, consumidores. A conclusão é boa para a cidade: ainda que alguns itens preocupem – sobretudo o aluguel e os imóveis prontos e lotes à venda –, BH ainda é uma cidade grande que alia qualidade de vida sem ser tão cara. Acredite, é isso mesmo, por mais que as contas salgadas do dia a dia o deixem nervoso...

A cidade está entre as capitais mais baratas do país, segundo a Pesquisa Mercer de Custo de Vida no Brasil, que a coloca na sétima posição entre 10 grandes cidades brasileiras. A pesquisa é feita para balizar o custo de transferências de profissionais e suas famílias, mas bem pode servir como um termômetro para medir quanto pagamos por lazer, educação, transporte, alimentação e aluguéis, dentre outros dez itens analisados. “Belo Horizonte só não é mais barata que Salvador, Recife e Goiânia. A alimentação não tem um peso muito diferente no custo de vida nas capitais pesquisadas. Mas, no que tange à educação, há uma diferença de 34% entre a mais cara e a mais barata”, diz  Renata Herrera, consultora em RH da Mercer.

Os dados confirmam o que já foi percebido por aqueles que vieram de outras capitais para BH nos últimos anos. É o caso da relações públicas Mariana Melo, que morou em São Paulo por cinco anos e voltou à sua cidade natal. “Aqui, consigo fazer coisas que não fazia em São Paulo, como ir ao salão todo fim de semana para fazer uma massagem. Você sente a diferença na conta bancária. Chegava o fim do mês e o dinheiro estava contado”, compara Mariana.

Para alegria de Mariana e de muitas outras mulheres, a capital mineira tem os serviços de beleza – como salão, academia e perfumaria – mais baratos do país. “Em São Paulo, um corte de cabelo sai por R$200. Aqui, em um salão do mesmo nível, é R$ 90, no máximo. O mesmo vale para outros tipos de serviço”, afirma a relações públicas.

O economista e professor da Faculdade Senac, Adriano Porto, explica a equação que faz Belo Horizonte ter preços inferiores aos de várias capitais. Segundo ele, a maior concorrência em alguns setores, principalmente o de combustível, colabora para que a conta seja menor. “Não temos um monopólio como existe em outras capitais, onde o setor é bem mais cartelizado. E esse item, o petróleo, ajuda na formação de diversos outros preços”, diz.

Um desses itens é o custo do transporte. O fotógrafo Rodrigo Lima já passou por Porto Alegre, Rio de Janeiro, Brasília e, há oito meses, recebeu uma proposta profissional para deixar São Paulo e vir trabalhar em BH.  “Escolhi morar na zona Sul para abrir mão do carro. O transporte público aqui é barato; o único empecilho é que são poucas linhas. Mas o táxi, por exemplo, é muito mais barato: gasto R$ 30 por dia, bem menos do que gastava nas outras cidades”, diz.

Apesar dos poucos meses em terras mineiras, o fotógrafo define bem a capital mineira: “Belo Horizonte me lembra as cidades de grande porte do interior paulista: é uma cidade grande, que oferece qualidade de vida e o custo de vida é acessível”.

Se o custo de vida em Belo Horizonte pode ser considerado baixo, alguns itens pesam no orçamento doméstico. O aluguel de imóveis, segundo o Instituto de Pesquisas Econômicas e Administrativas (Ipead-UFMG), subiu 12,5% nos últimos 12 meses, enquanto a inflação acumulada foi de 6,08%.

Ariano Cavalcanti, presidente da Câmara do Mercado Imobiliário (CMI), diz que essa é uma tendência nacional e não vê uma solução a curto prazo. Segundo ele, o culpado pelo alto custo dos imóveis é o gigantesco déficit habitacional que, somado ao crescimento econômico dos últimos dez anos, resultou num boom imobiliário. “O que aconteceu é que, desde 1986, quando o BNH foi extinto, o país mergulhou numa crise profunda de hiperinflação, e isso criou uma demanda imobiliária reprimida fora do normal. Quando alcançamos a estabilidade monetária, o mercado começou a crescer vigorosamente. Todo mundo quer comprar e alugar, mas não tem oferta no mesmo nível”, explica.

Para o economista Adriano Porto, em cidades como Belo Horizonte e Rio de Janeiro a situação se agrava devido às condições geográficas. “Vivemos numa cidade que não tem área de expansão. Quem não pode pagar tão alto se muda para outra cidade. Mas tem aquela velha história: os filhos se casam e querem viver perto dos pais, eles não vão mudar de cidade. Então pagam cada vez mais caro por isso.”

Ainda assim, o representante comercial José Antônio Viana e sua mulher, Mônica Viana, não se arrependem de ter deixado São Paulo com os dois filhos para viver em BH. O casal mantém uma planilha com todos os gastos e, segundo Viana, a diferença entre a casa que está alugada em SP e o que ele paga de aluguel em BH é recuperada nas mensalidades escolares dos filhos.

“Eu já fiz a conta. Em maio do ano passado, paguei R$ 893 de mensalidade para a Juliana. Em junho, quando mudamos para cá, essa despesa caiu para R$ 490. É uma diferença de 30% para o mesmo nível de educação. Economizo 60% com escola para meus dois filhos.”

Mas, para que continue sendo, além de uma cidade barata, um lugar bom para se viver, é preciso planejamento, como lembra o economista Adriano Porto. “Nesse cenário de crescimento econômico e reconstrução da cidade, é preciso investir em trens urbanos e novas linhas de metrô. Só assim iremos garantir a manutenção da qualidade de vida da cidade”.

Impossível discordar...
 

Fonte: http://www.revistaencontro.com.br/revista/economia/o-preco-de-bh.html

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